UMA DÉCADA PARA GARANTIR O FUTURO DO OCEANO


Pela primeira vez, em mais de 30 décadas já propostas, o Oceano ganhou os holofotes. Mas por que agora?

Um fator é a ampliação do conhecimento sobre ele e sobre sua influência no funcionamento do planeta. Está cada vez mais latente o entendimento de que as atividades humanas dependem (e influenciam) fortemente do Oceano, como a produção de oxigênio; regulação do clima, sequestro e armazenamento de carbono; imensa, importante e ainda desconhecida biodiversidade; além de variados outros serviços ecossistêmicos.

Outro fator é a degradação que ele vem sofrendo. Poluição de diversos tipos, sobrepesca, invasão de espécies exóticas, supressão de habitats e mudanças climáticas impactam a biodiversidade e os benefícios que o Oceano traz para a humanidade. A primeira avaliação global do Oceano, publicada em 2016, foi bem clara ao expor que nenhum lugar em sua vastidão está livre de impactos humanos.

Encontrar soluções para tantos problemas é uma necessidade urgente que depende diretamente da ciência

Os objetivos são interconectados e contribuem para o desenvolvimento sustentável do Oceano e do planeta como um todo. Um oceano limpo, com as fontes de poluentes terrestres e marinhas conhecidas e controladas, é saudável e capaz de lidar com eventuais pressões que venham a acontecer no futuro. A diminuição da poluição reduz o risco de consumo de organismos marinhos que tendem a acumular compostos prejudiciais à biodiversidade e à saúde humana.

Além de fonte de alimento, o Oceano pode ser fonte de minérios (petróleo e gás) e energia limpa (ventos e ondas) que devem ser explorados de forma racional e a compartilhar amplamente os benefícios com a sociedade. O desenvolvimento de uma economia do oceano depende da segurança de quem trabalha nele, como pescadores e marinheiros, ou de quem é influenciado por ele, como o turismo realizado na zona costeira.

Para que aconteça o uso sustentável do Oceano é fundamental que tenhamos capacidade de prever o complexo comportamento do bioma marinho, o que depende da geração e do compartilhamento de dados. Logo, o conhecimento sobre o maior ambiente da Terra deve ser amplamente disseminado para que a sociedade entenda sua importância e se inspire e se envolva em sua proteção.

Assim, para superar os desafios impostos pela busca da sustentabilidade do Oceano, é necessário gerar conhecimento e ampliar o entendimento e a valorização da sociedade sobre ele. Para tanto, é fundamental que sejam ampliadas significativamente as ações de comunicação e divulgação do ambiente marinho e do conhecimento científico produzido. As pessoas devem ter a oportunidade de ampliar seu conhecimento sobre como o Oceano funciona e quais as importâncias e influências no dia a dia.

O Brasil já está navegando para chegar nesses objetivos. Entre os anos de 2017 e 2018, a agenda do Oceano ganhou destaque por aqui, especialmente após a Conferência do Oceano, realizada em 2017 em Nova Iorque pela ONU. Mais recentemente, em 2020, o MCTI, por meio da Coordenação de Geociências, Oceano e Antártica, liderou uma parceria entre várias instituições para elaborar o Plano Nacional da Década do Oceano.

Dentro desse contexto, a Cátedra Unesco para Sustentabilidade do Oceano foi criada em 2018 junto ao Instituto de Estudos Avançados e ao Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo como uma forma de promover a agenda do Oceano. A cátedra pretende, dentre outras ações, disseminar conhecimento sobre o Oceano e estimular a realização de pesquisas aplicadas às demandas da sociedade.

O ano de 2021 será um novo horizonte para articular, priorizar e mobilizar pessoas que congregam diferentes visões, interesses e princípios, para vislumbrar um futuro para o Oceano que seja aquele que todos precisam e que (in)conscientemente desejam

Por Alexander Turra, professor do Instituto Oceanográfico (IO) da USP, e
Tássia Biazon, pesquisadora da Cátedra Unesco para Sustentabilidade do Oceano

Fonte: http://www3.io.usp.br/index.php/noticias/1354-uma-decada-para-garantir-o-futuro-do-oceano.html